Tuesday, June 24, 2008





O Tiago, editor da splash mag, revista de surf dos algarves, convidou-me e proporcionou-me uma oportunidade para ilustrar um texto à maneira, do Joaquim Fonseca. Cá vai o resultado e um abraço para o Tiago pelo bom trabalho e outro para o Joaquim pelo texto mesmo fixe, do qual eu não podia estar mais de acordo. Além de ser um surfista paparuco, também sou agricultor paparuco. Lá no quintal tenho uma horta onde planto cebolas couves, tomates e o que der, e até, com a ajuda dos "locals" da santa terrinha e da Mada, construi-mos um tanque para aproveitar as águas da chuva. A verdade é que plantar uma horta e ver as coisas a crescer até se tornarem alimento, pode dar quase tanta pica como uma manhã de glass e pouco crowd... ainda hoje apanhei uma alface.

segue-se a história do joaquim, "a àrvore do surf"

Eu não devia ter mais de 5 anos e um mundo de sonhos e descobertas pela frente. Cresci até à minha adolescência sempre muito ligado ao campo já que os meus pais possuíam uma casa e meia dúzia de terrenos onde eu acabei por passar grande parte do meu tempo, não só em lazer mas também (se calhar até principalmente) a ajudar em certas tarefas sazonais como a apanha da alfarroba, da azeitona e da amêndoa. O campo não tinha para mim mistérios. Já o mar, longe que estava, sempre inspirou em mim outros sonhos e inquietudes, curiosamente e amiúde em relação com o espaço que eu mais normalmente frequentava.
Quem não conhece a experiência da vida no campo, não sabe da vida metade. Pelo menos é a minha opinião. O campo tem tudo o que é mais natural e próximo da natureza humana – o contacto com a terra e a sua capacidade de nos fornecer alimentos fazem-nos aproximar da nossa natureza mais longínqua de animal nómada e recolector. No entanto, acho que não pensava muito nisto, pelo menos conscientemente naquela altura, até porque a minha relação com as tais tarefas sazonais não era compreensivelmente a melhor, mais interessado que estava em procurar e descobrir novos espaços para as minhas brincadeiras de criança. Até aqui eu acabo de identificar mais uma possível comparação com o surf – a procura e descoberta de novos espaços para brincar tal como procuramos novas praias para surfar. Era nisto que consistia o meu fascínio pelo campo - o conceito da aventura, da descoberta e de toda uma imaginação ligada a certos espaços, como por exemplo um caminho de cabras mais bucólico ou uma árvore mais alta e difícil de trepar.
De todas estas recordações guardo uma em especial. Uma velha alfarrobeira cujo tronco principal teria tombado e ficado horizontalmente suspenso a cerca de um metro do chão, para onde eu subia, me sentava e me imaginava então num barco navegando por entre as águas e ondas revoltas de um mar de fenos, ervas altas e outros pequenos arbustos que me tocavam na ponta dos pés. Como o tal tronco balançava um bocado e fazia barulho não me era difícil imaginar que estava de facto no mar onde sucediam uma série de aventuras. Ora esta fértil imaginação que conseguia reproduzir o mar em pleno campo, e fazer de um tronco de uma árvore um enorme barco é hoje para mim qualquer coisa de fascinante.
Não foram também poucas as vezes em que de noite sonhava que o mar tinha avançado desde a costa e chegado até “à porta” minha casa (sonhos estes em que acordava de manhã e indo assomar-me à janela verificava num misto de espanto e alegria que vivia agora de frente para o mar). Tudo isto me faz questionar o porquê deste meu fascínio quase fetiche sobre a relação mar/campo que me fazia sonhar frequentemente com acontecimentos deste tipo. Será que o lado mais protector do campo, sendo um espaço mais fechado me abstrai de algum complexo de insegurança que sinto relativamente ao mar? Não faço a mínima ideia mas o que é facto é que há qualquer coisa de extremamente atraente no campo nesta relação cujo paralelo real será talvez uma experiência de surf no rio amazonas. Por outro lado, é de notar que à medida que crescemos e como em quase tudo na vida, os nossos sonhos mais abstractos se desvanecem para dar lugar a uma visão mais objectiva, concreta e redutora das coisas. No fundo, tal como acontece com a nossa visão do surf que cresce cheia de sonhos e descobertas e acaba porventura frustrada (pelo excesso de crowd, pelo pouco tempo para surfar ou pela nossa pouca habilidade dentro de água…)
Numa altura em que grande parte de nós deixa de saber apreciar a beleza intrínseca das coisas para atribuir um valor exagerado a questões mais técnicas e superficiais do surf como a performance, o equipamento, a competição entre companheiros de ondas, o tamanho das ondas que se surfa ou o próprio crowd, é altura de voltar um pouco atrás e pensar que as ondas boas e o bom surf é onde o homem quiser, até mesmo numa praia sem ondas, é tudo uma questão de atitude e imaginação.

10 comments:

pozinhos... said...

Não percebo nada de ondas e muito menos de surf mas revejo-me nestas palavras talvez porque se apliquem em quase tudo na vida (ou pelo menos na minha)

Essas couves...

Parabéns pelo teu trabalho não só como agricultor paparuco, mas também como ilustrador fora de série :)

Carla Pessoa

João Catarino said...

Belíssimo! texto/ilustraçâo

lucas said...

Belo texto meu, soube mesmo bem ler esse pedaço de palavras, muito boa ilustração também, gostei muito. pá esse texto fez me lembrar estranhas teorias que fazia a uns anos atrás sobre o surf, que está em tudo o lado, as ondas de vida, de energia, saber mandar um floater quando o lip se fecha á nossa frente, como quem diz que nos dá um berro a dizer não e temos que dar a volta, contornar os obstaculos, round the house snapback on the face of the bastards... não sei, mas entretanto isso passou um bocado, mas em parte está sempre comigo, nos pés uma prancha no coraçao o mar na cabeça as ondas. e ultimamente tenho apreendido a fazer daquelas ondas não muito boas , surfa las ainda melhor, puxar pelo que há de bom e desbundar um ganda botton turn pa subir e descer e continuar nesse movimento perpetuo, fluir num tubus eternus ...


muchas gracias bird

:)

ze bird said...

tás inspirado lucas!

Sandra said...

Adorei o texto! Com as ilustrações, então, é mesmo memorável! A audácia, como bem diz Goethe, comporta, sempre, talento, força e magia. Este espaço é, sem dúvida, a antítese da imagem dos "capitães na areia", pasmados e tristes. É um espaço de belas descobertas quotidianas. Parabéns!:)

markO said...

essas paginas da revista sao as melhores, pela imagem e pelo conteudo, parabens pela imagem

choco said...

fixe o teu desenho na splash..continua
spotdoxoco

Pedro Ferro said...

Tenho apenas umas mini varandas, não tenho quintal, pelo que as minhas experiências do foro agrícola estão à mesma escala e se resumem a umas alfaces plantadas num vaso assim p o comprido, uns morangos num vaso-morangueiro e mais duas dezenas de plantas que rego e trato diariamente junto com o meu puto T de 3 anitos para que ele n fique alheio e tb dê importância ao mundo natural e vegetal.

Plantámos juntos as sementes, regámos e ao contrário do que ele pensava foi preciso mais do q e um instante para q as ditas alfaces nascessem.

Ontem, de certa forma, finalizámos o percurso, apreciando umas folhas das ditas com um toque de azeite e flor do sal. Ele comeu a salada com um gosto que nunca antes lhe tinha visto!

Isto para dizer que gostei do teu post, da tua ilustração e do texto do Joaquim... com filhos é fácil revivermos árvores barcos e nos deliciarmos com esses imaginários tão ricos.

Abraço

Yara Kono said...

Eu sugiro uma invasão dos amigos urbanóides a tua horta. "Botar" a malta a arrancar erva daninha e ajudar na colheita.

Belo texto e ilustração.

x

Gonças said...

Do melhor que tenho lido. Adoro escrita sincera. Revejo-me no que escreves, desde a ligação eterna à terra até ao fascínio do mar. De urbanóides estou cheio e cada vez mais me sinto atraído pela simplicidade do campo.
Keep on...abraço